
DINO: Sabemos que a senhora tinha filhos lá na escola. Como eles estão?
PROF.ª JUREMA: Tenho cinco filhos e quatro netos. Todos meus filhos estudaram no Experimental. O mais velho, Paulo, é Cientista Social, formado pela PUC; Marcos fez Economia também na PUC e Artes Plásticas na FAAP; Roberto formou-se em Agronomia na ESALQ (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) e atualmente mora em Ribeirão Preto; Maria Lúcia é Fonoaudióloga e Maria Teresa é Psicóloga, ambas formadas pela PUC-SP. Quando eles saíram do Experimental conseguiram entrar em bons colégios. Então, posso concluir que a formação foi muito boa.
DINO: A senhora chegou para trabalhar no Experimental logo depois da fundação. Qual atividade desempenhou na escola?
PROF.ª JUREMA: O Experimental foi criado em 1955, eu fui uma das primeiras a trabalhar lá. Fiquei onze anos na pré-escola e depois mais uns nove anos em funções alternadas como orientadora de professoras, coordenadora, vice-diretora do pré e pesquisadora.
DINO: Que tipo de pesquisa a senhora fazia?
PROF.ª JUREMA: Tínhamos um setor de pesquisa, dentro da escola. Nossa equipe de pesquisadores analisava o desempenho da escola, tanto o método de trabalho como a avaliação dos alunos.
DINO: Com quais diretores a senhora trabalhou?
PROF.ª JUREMA: A escola teve muitos diretores; em 1955 era Ulysses Lombardi e depois, por volta de 1963 entrou a Therezinha Fran, que foi quando a escola deu uma deslanchada. A Therezinha era uma pessoa dinâmica, líder, fez curso de liderança internacional nos EUA e conseguiu muitos recursos da Secretaria de Educação. Ela trouxe muitos profissionais bons para o Experimental. E, eu me lembro que a Therezinha circulava muito pelos meios acadêmicos, visitava muitas escolas e fez muitos bons contatos. Foi ela quem difundiu o trabalho do Experimental.
Em seguida entrou Maria Ignez Longhin de Siqueira, muito boa também, que manteve a mesma linha da sua antecessora. Mas depois entrou a Maria Luiza, uma diretora administrativa, indicada pela Secretaria de Educação, com a finalidade “enxugar” despesas da escola.
DINO: Como era feito a admissão do aluno no Experimental?
PROF.ª JUREMA: A escola tinha um critério de seleção de alunos que era levado muito a sério. Começava pela proximidade que o aluno residia, em relação à escola. O Experimental ficava na Rua Tibério e fazíamos um mapa circular, tendo a escola como núcleo. Então, gradativamente, chamávamos os alunos que moravam mais perto até terminarem as vagas. Então, os mais próximos eram os primeiros a garantirem a vaga, mas qualquer criança, de qualquer região poderia se inscrever. Eram chamadas crianças até que fossem preenchidas as vagas. Desta forma, havia crianças das regiões próximas da Vila Romana, como Água Branca e Pompéia. Eu mesma morava na Rua Claúdio, pertinho da Igreja e íamos e voltávamos a pé - eu e meus cinco filhos. Houve casos de pessoas que compraram casa na Vila Romana somente para terem os filhos no Experimental. Quanto ao nível social, a preferência era por crianças de menor poder aquisitivo, mas, da mesma forma que a localização, havia alunos de todos os níveis sociais: filhos de médicos, operários, ferroviários, comerciantes. O bom de uma escola democrática é poder conviver com pessoas diferentes seja na classe social, nível intelectual ou econômico e a escola tinha recursos para isso. O Experimental chegou a ter cerca de 1300 alunos
DINO: E havia um trabalho para alunos deficientes?
PROF.ª JUREMA: Sim. Havia uma professora especializada em alunos com deficiências visual, física e mental e o currículo era elaborado especialmente para crianças com essas dificuldades. Havia ainda, uma especialista em dificuldade visual que ensinava Braille para os cegos. Foi um trabalho muito interessante e integrador.
DINO: Qual trabalho que realizou lá que em sua opinião foi inovador?
PROF.ª JUREMA: A escola toda tinha um currículo inovador, mas uma atividade muito importante que fizemos foi o Mutirão de Saúde. Aconteceu durante a direção de Therezinha Fran. Na época, organizar tudo aquilo pareceu até uma ambição desmedida, mas foi a coisa mais bem feita que vi. Tudo organizado e planejado onde cada um tinha uma função definida. Quem nos orientou foram os professores da Faculdade de Higiene e Saúde Pública. Muitos pais de alunos, médicos e interessados vieram trabalhar neste dia, como voluntários. Até alunas do curso de Fonoaudiologia da PUC orientadas pelo professor Mauro Spinelli, médico otorrino, realizaram audiometria. Foi definida uma escala para cada turma: pré-primário, ginásio e curso noturno. Organizados no galpão pela professora de classe, os alunos eram medidos e pesados pelos professores de Educação Física e depois encaminhados para os consultórios - as salas de aulas foram adaptadas para que os médicos realizassem os exames clínicos geral nas crianças - e a seguir eram encaminhados para testes de acuidade visual e auditiva. No final do dia, quando o evento acabou, fizemos uma reunião conjunta para avaliação do mutirão. Foi muito interessante, analisamos cada ficha e descobrimos crianças com problemas cardíacos, visuais, entre outros. Posteriormente, orientamos os pais desses alunos para que procurassem um especialista. O resultado do mutirão foi maravilhoso, deu tudo certo; tanto que o evento foi repetido outras vezes.
DINO: Havia outras escolas que atuavam como o Experimental?
PROF.ª JUREMA: No mesmo molde do Experimental havia o Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha, em São Paulo e em algumas cidades do interior. O Vocacional fez







Professora Jurema, 20 anos de dedicação no Experimental
Quando a Professora Jurema começou a falar sobre o Experimental, seus olhos ganharam um outro brilho. Pareceu voltar no tempo e detalhou uma época em que o ensino tinha uma grande importância na formação do ser humano.
A professora Maria Jurema Venceslau de Carvalho fez parte da história do Experimental e soube impor sua marca nesta que foi uma das vivências mais significativas da história da educação na cidade de São Paulo.
A Escola Experimental Professor Edmundo de Carvalho começou a funcionar em 1955, tendo a Professora Jurema como uma das primeiras contratadas - em 1956. Daí, foram vinte anos de dedicação à escola, exercendo diversas funções.
Mas, sua caminhada pela educação começou bem antes, em 1953 em Campinas, quando se especializou em Educação Pré-primária e alguns anos depois, em 1962 aprofundou os estudos num curso sobre o Método Montessori.
Depois, já casada e com os filhos, cursou Pedagogia na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras “Sedes Sapientiae”.
O curso de Pós-graduação em Psicologia da Educação foi realizado na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), no ano de 1981, instituição onde também fez o mestrado sob a orientação do professor José Roberto Maluf apresentando a tese “O professor estadual - um valor ameaçado.”
Prof ª Jurema Venceslau Carvalho:
um trabalho maravilhoso sob a coordenação de Maria Nilde Mascellani (falecida em 1999). Tanto o Vocacional quanto o Experimental ofereciam um nível de estudo inovador preocupados com a formação do ser humano e a realidade em que ele vive. Mas, com a ditadura, estes dois colégios foram vistos como ameaças ao regime militar e houve censuras e prisões. Em 1968, Maria Nilde e alguns professores foram afastados. No Experimental também sofremos com a ditadura e houve cortes de professores, pois a Secretaria de Educação alegava que não havia verba para manter o nível que estava sendo oferecido. Foi uma espécie de “nivelar por baixo”, rebaixar o nível significou economizar.
DINO: O que mais agradava à senhora, como professora, numa escola dos moldes do Experimental?
PROF.ª JUREMA: A gente não trabalhava só dentro do nosso horário, trabalhava muito mais, não tinha aquela pressa de ir embora e nem de trabalhar só pelo dinheiro. O bom é que cada um gostava do seu trabalho e todos se empenhavam muito. A escola possuía professores especializados em cada área de estudo: Português, matemática, estudos sociais, ciências e educação especial (para deficientes), áreas expressivas (artes plásticas, música, artes industriais, teatro e educação física), além de psicóloga, fonoaudióloga, dentista, serviço social, biblioteca. O sábado era o dia de aula para os professores, com reuniões e palestras. As manhãs de sábados eram uma delícia.
DINO: E como funcionava o trabalho com os pais de alunos, oferecido pela escola?
PROF.ª JUREMA: Não era como uma APM (Associação de Pais e Mestres). A APM existia, sim, mas era encarregada de cuidar da parte material da escola onde todo dinheiro arrecadado era gasto nas necessidades da escola. No Experimental havia alguns pais de alunos muito atuantes, que foram nossa mão direita. Eles eram preocupados não só com seus filhos, mas com todas as crianças. Por exemplo, quando eu comecei a trabalhar lá não havia muro e a bola das crianças caia sempre para a rua. Um perigo! A escola colocou três fios de arame liso, que não resolveram o problema. Então, os pais se reuniram e fizeram uma campanha de venda de jornal e, com o dinheiro foi construído o muro da escola.
Havia ainda a Escola de Pais, para aqueles que precisavam de orientação na educação de crianças e jovens matriculados na escola. Naquela época era só escola particular que tinha este tipo de preocupação, mas conseguimos implantar no Experimental, que era escola pública. Meu marido e eu fizemos um curso de formação de líderes para sermos orientadores na Escola de Pais, levamos alguns pais de alunos também para fazer o curso e conseguimos formar cinco classes de pais, desde engenheiros até operários e donas-de-casa. Nossos encontros aconteciam uma vez por semana à noite e tínhamos uma programação com apostilas, reuniões e debates onde orientávamos os pais na educação de seus filhos. Os problemas enfrentados pelos pais na educação dos filhos eram bem parecidos, independente de classe social.
DINO: A senhora tem saudade da escola?
PROF.ª JUREMA: O bom é que estreitamos nossos laços pessoais, fizemos muitos amigos e todo mundo que eu encontro daquela época, lembra com muita saudade, seja professor, seja pai de aluno, ou o próprio aluno. Era uma época de harmonia, havia uma vida social de bairro e todos têm saudade daquele tempo.