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      Professor Odilon:

O Experimental para nós foi uma grande escola

Com a mesma disposição daqueles anos de Experimental (ou GEGEDEC como preferem alguns), o professor, hoje, com 63 anos e já aposentado, não dispensa a academia todos os dias e nem o futebol aos sábados.
Além de dar aulas no Experimental, Odilon foi também comissionado do CENPE - Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas, entidade que produziu materiais para toda a rede pública de ensino e por 38 anos lecionou na Fundação Instituto Tecnológico de Osasco. Aposentou-se em julho deste ano e faz muitos planos para continuar suas viagens pelo mundo.
Casado há 21 anos com Sylvia Oliveira Nocetti, e pai de três filhos, o professor aguarda para fevereiro sua primeira neta, Anita.
Quem teve aulas de Educação Física com o professor Odilon hoje tem um carinho especial por esportes e com certeza, as sementes que ele plantou renderam muitos frutos por esse mundo afora.

DINO: Lecionar no Experimental foi seu primeiro trabalho, depois de formado?
Prof. ODILON:
Sim. Eu me formei em 1968 pela Universidade de São Paulo e comecei no Experimental no ano seguinte. Quando comecei a dar aulas lá tinha 24 anos. Para poder dar aula no Experimental, fizemos teste e dinâmica, onde havia pessoas julgando e analisando o desempenho de cada um de nós. Da minha turma entraram vários: O Adriano Beozo, Vicentini, entre outros. Fiquei no Experimental por 10 anos.

DINO: E para onde foi depois de lá?
Prof. ODILON:
Fiquei ainda na rede pública, fui chamado para trabalhar como comissionado para o CENPE - Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas -, uma entidade que produz materiais para toda a rede pública de ensino. Ajudei a elaborar apostilas e guias curriculares. Lá o trabalho era mais intelectual. Mas, continuei lecionando e por 38 anos trabalhei na Fundação Instituto Tecnológico de Osasco.

DINO: Como foi trabalhar no tempo da ditadura militar com um projeto tão inovador?
Prof. ODILON:
Não afetou para nós darmos aula mas, sofremos algumas censuras. Lembro-me que na época as orientadoras das 5ª e 6ª sérias do Experimental eram duas professoras a Geni e a Gerusa. Elas começaram com sessões de orientação sexual mista, mas alguns pais ameaçaram-nas de irem à polícia caso as aulas continuassem. Também na época nós tivemos um professor de Física, o Mário que participava de luta armada e que dividia apartamento com um rapaz que também lutava e que foi descoberto tentando colocar uma bomba num prédio. O DOI/CODI foi atrás do professor Mário e tiraram-no da sala de aula, depois que o levaram, nunca mais tivemos notícias.

DINO: Como funcionava o método de ensino daqueles anos no Experimental?
Prof. ODILON:
O Experimental era uma escola espelhada no modelo Sammerhill, da Inglaterra, que valorizava a importância do bem estar emocional das crianças, baseado nos livros de A. S. Neill: “Liberdade sem medo” e “Liberdade sem excesso”. Eu dava aulas para 5ª e 6ª séries e cada uma com três ou quatro classes. Então eram poucas crianças. Dava pra fazer um trabalho legal. No Experimental nesta época, tinha aproximadamente 400 alunos no total (desde a pré-escola até 8ª série), o Zuleika (Colégio Zuleika de Barros) tinha cerca de cinco mil alunos. Mas, na época dos Campeonatos Colegiais não tinha adversário na redondeza que nos vencesse, pois fizemos um planejamento seqüencial de Educação Física baseado em objetivos. As escolas que faziam frente aos nossos times eram escolas particulares: Rainha dos Apóstolos, Santa Cruz. Agora, as escolas públicas eram nossos “fregueses”. No Experimental fazia-se realmente Educação Física. Não tinha esse negócio que hoje é feito nas escolas em geral, onde o professor joga uma bola e essa é a Educação Física; as crianças se matam jogando futebol. Naquela época os meus alunos nunca jogaram futebol a não ser na “aula livre” - a cada final de mês ou bimestre - e mesmo assim as crianças preferiam handebol e basquete. Então era assim: desde o pré até a 8ª série já existiam determinados objetivos que o professor tinha que trabalhar: formas primárias (andar, correr, saltar, saltitar), formas secundárias: arremessar, receber, pegar, quicar. E assim ia, trabalhando em cima dos objetivos em cada ano. Quando chegava pra mim na 5ª série eu iniciava com basquetebol. No Experimental só não aprendeu jogar quem não quis. Porque o indivíduo que sobressaía ia para os grupos de treinamento e os que tinham dificuldade iam para o grupo de recuperação. Eu me lembro de uma aluna Maria Lúcia, que hoje é dentista, que era do grupo de recuperação. Mas, ela era tão interessada e se esforçou tanto que saiu do grupo de recuperação e chegou a jogar nos times da escola. Tínhamos times mirim, infantil e juvenil.

DINO: A partir do Experimental, o que você conseguiu levar para o CENPE?  
Prof. ODILON:
O trabalho no CENPE era burocrático. Aplicávamos a metodologia do Experimental no papel, para ser passado para a rede. Mas, é difícil falar para o professor da rede que ele tem que fazer este trabalho, igual ao do Experimental, por que lá, desde o pré os alunos já eram iniciados com o domínio da bola e handebol, para que quando chegasse na 5ª série eles entendessem o basquete. Quando eu pegava aquela garotada da 5ª série dava aulas e aulas só com o drible, empurrar a bola contra o solo e ter o domínio dela... não é dar duas batidas, mas sim progredir com ela em velocidade; depois passes. Chegava a enjoar. Mas nós trabalhávamos com trinta ou quarenta bolas americanas. Então cada aluno tinha sua bola para trabalhar! Na rede pública muitas vezes tem somente uma bola toda ovalada pra cinqüenta alunos! Não tem jeito...o contato que a criança vai ter com a bola é muito pouco. É inviável.

DINO: Qual a importância do esporte nas escolas?
Prof. ODILON:
Os alunos do Experimental que se interessaram por esporte, conseguiram se desenvolver; não para ser um grande craque, mas para socialmente se relacionarem com os outros... Num final de semana com amigos saberem jogar um basquete ou voleibol. Eu sempre digo que o voleibol é muito importante na formação social da pessoa. Pois, o voleibol tem uma peculiaridade, na qual um jogador não pode fazer a função do outro durante o jogo, como acontece no basquete ou no futebol. Então, o jogador de vôlei precisa saber quando é o momento dele fazer o toque por cima ou por baixo, caso contrário ele enterra o time e fica marcado para sempre. O grande problema que existe nas escolas públicas é que querem ensinar voleibol quando eles estão saindo da adolescência. É comum acontecer nas escolas
públicas o seguinte: o professor dava uma bola pra jogar, alguns já sabiam e outros não. A bola vinha e o aluno pensava e agora, o que eu faço: pego por cima ou por baixo?  Ele errava a primeira, a segunda e na terceira o time inteiro já estava xingando a quarta geração dele. Conclusão: nunca mais quer jogar. Inibe.

 



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DINO: Quais experiências o senhor carregou do tempo que lecionou no Experimental?
Prof. ODILON: O Experimental para nós foi uma grande escola. Pedagogicamente falando eu aprendi mais lá do que no meu curso de pedagogia e no meu curso de Educação Física. Por que lá nós tínhamos reuniões diárias, remuneradas, junto com o orientador.
Nós dávamos no máximo dezoito aulas num mês e ganhávamos pelo dobro, pois nas reuniões tínhamos que discutir cada caso, relatórios, todos os dias. Nós sabíamos de cor os nomes e casos de cada aluno. Tínhamos um orientador para cada série e uma psicóloga para cada duas séries. Isso é luxo para um país como nosso, principalmente naquela época. Por que no Experimental, o aluno era levado a pensar, nada era muito imposto; ele tinha possibilidade de dialogar, de discutir. Então a experiência foi maravilhosa. Para ter idéia do valor do Experimental, filhos de grandes políticos e pessoas ricas, davam “um jeito” para matricular os filhos lá. O Experimental era para pessoas do bairro. Sei de um caso de que uma pessoa falsificou o endereço, dizendo que morava lá no bairro, só para ter os filhos matriculados no Experimental. Quando descobriram o cidadão então, comprou uma casa lá para não perder a vaga, porque senão, os quatro filhos teriam que deixar a escola.

DINO: Os alunos então respondiam ao método. Em sua opinião por que não continuou?
Prof. ODILON: O projeto foi maravilhoso. Hoje não encontramos um político capaz de apostar suas fichas num modelo como aquele. Porque o aluno é muito caro para o Estado, embora pague uma miséria para os professores. Então o Estado quer se ver livre o mais rápido possível do aluno, por isso a idéia da progressão continuada, onde o aluno não repete, pois não se admite que o aluno passe o ano todo e tenha que fazer a mesma séria no próximo ano. Só que isso fez com que os alunos encarassem isso de forma corriqueira: “Eu posso fazer o que quiser, porque vou ser aprovado”. Então, o que era para ser progressão continuada, passou a ser promoção premiada. Hoje, além da dificuldade pedagógica, pois o professor ganha mal, ele trabalha mal, virou um círculo. Político hoje não quer investir, por duas razões: A primeira é que o retorno disso é a longíssimo prazo, aí o político já morreu.... Educação, saneamento básico que vai embaixo da terra, não dá voto. A segundo que é mais problemática é que para um país se desenvolver é preciso investir na educação, criar toda uma geração crítica, questionadora e aí como que ficariam políticos como Severino Cavalcanti, Clodovil Hernandes Frank Aguiar! Pessoas que não têm o mínimo conceito do que é uma sociedade, do que é viver em grupo!

DINO: O senhor pode citar alguns exemplos onde o investimento na educação deu certo?
Prof. ODILON: Finlândia e Coréia são as duas maiores potências do mundo em tecnologia da educação. Na Coréia do Norte, logo depois que terminou a guerra, os dirigentes resolveram investir maciçamente em educação. Vai ver o que é a Coréia hoje! Eles já sediaram até uma olimpíada! Para sediar uma olimpíada é preciso ter uma organização impar. O Brasil não tem esta capacidade ainda e corremos o risco de dar vexame. Pois um evento como este envolve muita disciplina, tecnologia e educação num povo. O Lula tem muito mérito...um sujeito que não era nada chegar presidente! É de tirar o chapéu, mas ele não tem aquela visão que o acúmulo de conhecimento, uma carreira acadêmica, pode dar. Uma visão de abertura mundial, de sociedade justa.

DINO: Como o senhor analisa a educação nas escolas atualmente?
Prof. ODILON: Sou do interior de São Paulo, de uma época onde se devia respeito aos mais velhos. Naquela época uma criança ou adolescente não respondia para um adulto se não fosse chamado, não se entrava na discussão e, se fosse perguntado respondia somente “sim senhor”, “não senhor”, ou “sim senhora”, “não senhora”. Hoje, é diferente! Há pouco tempo eu estava como orientador e vi um menino do segundo colegial (ensino médio) discutindo com a professora de inglês. E ele saiu batendo a porta. Chamei o aluno e disse: “Filho, gosto muito de você, mas sou obrigado a te dar uma advertência pela falta de respeito e na próxima vez você vai suspenso.” No dia seguinte, antes do início das aulas, toca o telefone na minha sala. E era a mãe do aluno advertido perguntando o que tinha acontecido com o filho dela. Respondi: “Seu filho foi malcriado com a professora saiu batendo a porta, fui obrigado a dar uma advertência pra ele.” A mãe então, respondeu: “É mesmo? E para a professora o que você deu?” Então, há uma grande distância da realidade. Não há mais respeito com o professor.
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